Saúde renal

Creatinina alta: o que fazer antes de entrar em pânico

A pergunta que originou este texto: “Meu exame veio com a creatinina alta. E agora, o que eu faço?”

Resposta curta

Primeiro, não decidir nada com um exame só. A creatinina sobe por desidratação, treino, suplemento, um jantar de carne ou alguns remédios, sem que o rim tenha adoecido. Doença renal é filtração estimada abaixo do esperado ou albumina na urina, confirmadas ao longo de três meses. O passo certo é repetir em condição padronizada, pedir a albumina na urina e levar tudo para a consulta.

Sabe a cena? A pessoa faz o check-up da empresa, abre o laudo no celular ainda na Marginal, parada no trânsito, e vê "creatinina" com uma seta para cima. Joga no buscador, pergunta para uma inteligência artificial, e chega à consulta convencida de que o rim acabou. Respira, tá?

Na maior parte das vezes, não acabou nada. Mas "na maior parte das vezes" não serve para você decidir sozinho, né? Serve para você não entrar em pânico enquanto faz o que precisa ser feito, na ordem certa, e a gente vai por partes.

O que a creatinina alta quer dizer, de fato?

Que o seu sangue está com mais creatinina do que o intervalo de referência do laboratório. Só isso, por enquanto. A creatinina é o resíduo do metabolismo do músculo, produzida o tempo todo e eliminada pelo rim, tipo o lixo que o prédio gera todo dia e o zelador leva embora. Quando o rim filtra menos, ela se acumula. Quando o corpo produz mais, ela também sobe, e aí o rim não tem nada a ver com a história.

O intervalo impresso no laudo é o mesmo para todo mundo, e varia de um laboratório para outro e entre homens e mulheres. O software que pinta o número de vermelho não sabe se você tem cinquenta quilos de músculo, se treinou perna ontem ou se ficou o dia inteiro sem beber água, entendeu? Quem sabe é quem examina você.

É por isso que os nefrologistas não olham a creatinina sozinha. Olham a taxa de filtração glomerular estimada, a TFG, que é a conta de quanto o rim filtra por minuto, calculada a partir da creatinina, da idade e do sexo, e olham a albumina na urina. As duas juntas, ao longo do tempo, é que dizem se existe doença renal.

Por que a creatinina sobe sem o rim estar doente?

Porque a produção subiu ou porque o sangue estava concentrado no dia da coleta. Os motivos mais comuns no consultório:

  • Desidratação. Colher em jejum, depois de uma noite quente, sem beber água desde o jantar. O sangue fica concentrado, feito um suco que ficou com pouca água, e tudo que se mede nele sobe um pouco.
  • Treino intenso na véspera. Músculo em esforço libera mais creatinina por um ou dois dias.
  • Suplemento de creatina. Mais estoque no músculo, mais resíduo no sangue. O rim não piorou, a fábrica aumentou a produção.
  • Muita carne cozida no dia anterior. A carne já contém creatina, que vira creatinina na cocção e no corpo. Aquele churrasco de domingo entra na conta, tá?
  • Alguns remédios. Anti-inflamatórios reduzem de fato a filtração enquanto estão em uso. Outros, como certos antibióticos e protetores gástricos antigos, atrapalham a saída da creatinina pelo túbulo renal e elevam o exame sem mudar a filtração real, uma espécie de pedágio que atrasa a saída sem o rim estar pior.
  • Massa muscular acima da média. Quem tem muito músculo produz mais creatinina, sempre, e vive com o exame na borda do intervalo sem ter doença nenhuma.

O contrário também existe, e é mais perigoso: a pessoa idosa, com pouco músculo, que tem creatinina normal e rim funcionando mal. O exame engana nas duas direções, e é por isso que a gente não confia num número só.

Quando a creatinina alta é sinal de rim?

Quando a filtração estimada fica abaixo do esperado ou aparece albumina na urina, e isso se repete por mais de três meses. Essa é a definição de doença renal crônica na diretriz KDIGO, a referência internacional da nefrologia: alteração de estrutura ou de função do rim presente por mais de três meses, com implicação para a saúde.

A diretriz classifica a função pela TFG estimada, em mililitros por minuto:

  • Acima de 90: função normal ou alta.
  • De 60 a 89: levemente reduzida. Sem albumina na urina e sem outra alteração, isso sozinho não é doença.
  • De 45 a 59 e de 30 a 44: redução leve a moderada e moderada a grave.
  • De 15 a 29: redução grave.
  • Abaixo de 15: falência renal.

E classifica a albumina na urina, em miligramas por grama de creatinina urinária:

  • Abaixo de 30: normal.
  • De 30 a 300: aumento moderado. É o sinal precoce, e é a fase em que ainda dá para mudar o desfecho.
  • Acima de 300: aumento grave.

Uma creatinina alta isolada, com TFG acima de 60 e sem albumina na urina, não é doença renal crônica. Uma albumina de 80 com creatinina normal, repetida em três meses, é. O número que assusta no laudo não é o que decide.

Pense no rim como um filtro de café, tá? O papel do filtro pode continuar deixando passar a mesma quantidade de líquido (a filtração está normal) e já ter um furo pequeno por onde escapa borra (a albumina na urina). O furo é o primeiro sinal, e ele não aparece na creatinina, por isso eu peço os dois exames juntos.

O que fazer nos próximos dias?

Sem pressa e sem improviso, nesta ordem:

  1. Repita o exame em condição padronizada. Sem treino intenso nas 24 horas anteriores, com hidratação normal (nem seco, nem afogado em água), sem anti-inflamatório nos dias anteriores, com jantar leve na véspera. Se usa creatina, mantenha e avise; o médico precisa saber para interpretar.
  2. Peça a albumina na urina junto com a creatinina de sangue. É a relação albumina/creatinina em amostra isolada de urina. Sem ela, o exame de rim está pela metade, né?
  3. Se você tem muito ou pouquíssimo músculo, converse sobre a cistatina C. É o exame de filtração que não depende da massa muscular, e resolve boa parte das dúvidas em atleta e em pessoa idosa.
  4. Faça a lista de tudo que você toma, incluindo suplemento, chá, anti-inflamatório eventual e o remédio que você parou por conta própria. Sem julgamento, tá? Eu só preciso saber.
  5. Meça a pressão em casa, do jeito certo, por uma semana. Pressão é o fator que mais adoece rim ao longo dos anos, e a medida errada é mais comum que a hipertensão.
  6. Marque a consulta com os exames anteriores em mãos. Função renal se lê em série, comparando você com você mesmo. Um exame de dois anos atrás vale ouro.

Quando procurar o nefrologista?

Quando o sinal se confirma, ou quando o risco já existe antes do sinal. Vale a avaliação especializada se:

  • A TFG estimada ficou abaixo de 60 em dois exames com pelo menos três meses de intervalo.
  • Apareceu albumina na urina acima de 30, confirmada na repetição.
  • A creatinina subiu rápido entre dois exames próximos, mesmo dentro da faixa.
  • Há sangue na urina que não se explica por infecção.
  • Você tem diabetes, pressão alta de difícil controle, ou doença renal na família.
  • A pressão está alta e o exame de urina está alterado ao mesmo tempo.

Nesses casos o objetivo da consulta não é confirmar um diagnóstico assustador. É achar a causa enquanto ela ainda tem conserto, e proteger a função renal que você tem pelos próximos vinte, trinta anos, tá? Boa parte do que chega ao consultório com esse perfil sai com um ajuste de pressão, de glicemia ou de remédio, e nunca chega perto de uma diálise.

O que não fazer?

  • Não cortar proteína por conta própria. A quantidade certa é individual e depende da função renal. Cortar sem orientação custa músculo, e músculo é o que prevê a sua autonomia daqui a vinte anos.
  • Não parar o remédio de pressão porque "faz mal para o rim". É o contrário. Pressão bem controlada é a proteção mais eficaz que existe para o rim, e a maioria dos remédios de pressão protege o filtro.
  • Não tomar chá ou suplemento "para o rim". Não existe produto que aumente a filtração. Existe produto que sobrecarrega o rim que já está trabalhando no limite.
  • Não fazer uma dieta de três dias para "limpar o exame". Você vai maquiar o número e perder a chance de enxergar o que está acontecendo, e aí a gente trabalha no escuro.
  • Não decidir nada com um exame só. Nem para o pânico, nem para o alívio.

O que levar para a consulta?

  • Todos os exames de creatinina e de urina que você tiver, mesmo antigos.
  • A lista completa do que você toma, com dose, inclusive o que é "natural".
  • Quanto você treina, o que suplementa e como estava a hidratação no dia da coleta.
  • A anotação de uma semana de pressão medida em casa.
  • Se alguém da família tem doença renal, diabetes ou hipertensão, e desde quando.

Com isso, a consulta rende. O número solto no laudo vira uma história com começo, meio e uma direção, e a direção, na maioria das vezes, é bem melhor do que a seta vermelha sugeria. Junta esses papéis, marca a consulta e me avisa como foi, tá? A gente ajusta o que precisar, um passo de cada vez, e vai dar certo.

Referências

Dúvidas frequentes

O que mais perguntam sobre isso

Creatinina alta tem cura?

Depende da causa, tá? Quando é desidratação, treino, suplemento ou remédio, ela volta ao normal sozinha quando a causa sai. Quando é doença renal crônica, o rim em geral não volta ao que era, mas a progressão pode ser desacelerada por anos, às vezes por décadas, com pressão e glicemia controladas.

Beber muita água baixa a creatinina?

Só se você estava desidratado, né? Hidratação normal corrige a parte do exame que era falta de água; exagerar não filtra mais nem protege o rim. Litros a mais no dia do exame apenas mascaram o resultado, e a gente perde a chance de enxergar o que está acontecendo.

Preciso cortar proteína para proteger o rim?

Não por conta própria, tá? A quantidade de proteína é individual e depende da sua função renal e da sua massa muscular. Cortar sozinho costuma custar músculo sem proteger o rim, e músculo é o que sustenta a sua autonomia mais tarde.

Qual a diferença entre creatinina e TFG?

A creatinina é o que o laboratório mede no sangue. A TFG, taxa de filtração glomerular, é uma estimativa de quanto o rim filtra por minuto, calculada a partir da creatinina, da idade e do sexo. É a TFG, e não a creatinina isolada, que classifica a função renal.

Creatinina alta dá algum sintoma?

Quase nunca, nas fases iniciais. Rim doente não dói e não avisa. Inchaço, urina espumosa, cansaço e pressão difícil de controlar aparecem tarde. É por isso que o exame de rotina, e não o sintoma, é o que pega a doença cedo, entendeu?

Dra. Andrea Gaspar Marcos
Dra. Andrea Gaspar Marcos

Nefrologista (RQE 70373) e especialista em Clínica Médica (RQE 97457). Mestre em Nefrologia pela UNIFESP, com pós-graduação em Nutrologia pela Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein. Médica do Hospital Israelita Albert Einstein e professora da pós-graduação em Nutrologia do Einstein. CRM-SP 120.592.

Texto revisado clinicamente pela autora em .

Conteúdo educativo. Este texto não estabelece diagnóstico, não substitui a consulta médica e não deve ser usado para iniciar, ajustar ou interromper qualquer tratamento por conta própria. Cada caso exige avaliação individual.

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